


Tenho um calo. Não desses que dá no pé por causa de calçado. É uma coisa do tipo; o mundo conspira contra mim hoje. Ao invés de doer no pé, dói no peito e na cabeça.




Tenho um calo. Não desses que dá no pé por causa de calçado. É uma coisa do tipo; o mundo conspira contra mim hoje. Ao invés de doer no pé, dói no peito e na cabeça.
Quero escrever algo que sobreviva ao tempo. (Gay Talese)
Não tenho me esforçado.
Por enquanto esse é um blog sem nome.
Começo a acreditar mais em mudanças.
É que eu cresci, eu acho.
[do site do WWF- Brasil]
O WWF- Brasil participa pela primeira vez da Hora do Planeta, um ato simbólico que, será realizado amanhã, às 20h30, no qual governos, empresas e a população de todo o mundo são convidados a apagar as luzes para demonstrar sua preocupação com o aquecimento global.
O gesto simples de apagar as luzes por sessenta minutos, possível em todos os lugares do planeta, tem como objetivo chamar para uma reflexão sobre a ameaça das mudanças climáticas.
Participe!
Onomatopéicamente, o que ouvi foi: paft! Pobre animal. Certamente a mosca que pousou naquele nariz era descendente direta da que pousou no de Obelix. Essa fissura por insetos tem me tomado tempo de raciocínio. Fracos, insignificantes e pequenos; semelhantes demais a uma espécie que os vê assim. Frases moscas, dores moscas, vidas moscas, fome moscas, cores moscas. Tudo breve e ameaçado.
O mesmo risco, temores em comum, e ainda assim as acho tão mais autênticas. São persistentes, simplesmente não se importam, todos lhes parecem iguais. Elas, tão sem valor que são, pousam com a mesma alegria na careca de um doutor do que em qualquer porcaria. É anos luz mais provável que uma mosca pare no nariz do presidente, que o presidente pare no nariz de uma mosca. A mosca vive. Está em todo lugar, em qualquer época, na literatura, em Sartre. Então porque incomoda mais que o barulho da televisão?!
nanda.
Em 14 de março algumas pessoas comemoraram o Dia Nacional da Poesia. Para mim, dia de jejum e abstinência. Não festejei com um verso sequer, com uma rima sequer. Fiz o mais silencioso silêncio, dediquei minhas melhores horas a estudar a nova ortografia, fingi que não sabia de nada.
A poesia é um atraso. Poetas sofrem demais. Amam demais. Vêem demais. E depois ficam sonhando com empregos públicos, ou com a possibilidade de darem aulas em faculdade, ou, pior, com a justa remuneração por suas metáforas e aliterações.
Eu já quis ser poeta. Era um adolescente. Passou. Virei a página sem derramar uma lágrima. Esqueci. Abandonei essa veleidade. Por certo tempo um desejo envergonhado ainda permaneceu guardado por aqui, nas entranhas. Desapareceu definitivamente quando comecei a pagar contas de luz, telefone, aluguel, seguro de vida, faturas e outras loucuras.
Não convém atrasar o pagamento das contas. As multas, as cartas ameaçadoras, os telefonemas constrangedores recomendam o esforço da pontualidade. Poesia eu posso atrasar à vontade. Nenhuma daquelas antigas musas virá correndo, apavorada, lembrando que chegou o dia. A poesia, por definição, está vencida. Ninguém será punido se não pagar o tributo do verso aos deuses insaciáveis.
Morrerão de fome os deuses, se dependerem de um soneto meu, de um dístico, de qualquer coisa que cheire a poesia. Os editores que ainda ousam publicar poesia morrerão de fome também. Que aguardem para nunca mais o meu livro de poemas.
Poesia que se preza é poesia atrasada, póstuma, relegada, vítima da sociedade de consumo, da globalização, da corrupção crônica, da excomunhão compulsória, dos juros, das xenofobias, dos preconceitos mais bizarros.
Ninguém pede poesia a ninguém. Exceto os que fazem agendas para ganhar dinheiro com a emoção alheia. A poesia está atrasada. Quando chegou, a festa já havia acabado. Quando chegou, não havia ninguém esperando coisa alguma. Poesia vive atrasada porque não anda em dia.
Nem no seu dia nacional a poesia veio. Onde está a poesia? — ninguém perguntou. A poesia passou a noite em claro, procurando motivos para dormir, acordar cedo, sair para o trabalho, alcançar metas de produtividade, mostrar sua preocupação com a ecologia, com os excluídos.
Mas não será ela mesma uma excluída? E por opção? Mendiga que se recusa a ser recolhida, reintegrada, recuperada, readaptada?
O poeta espera a poesia chegar. E ela sempre, sempre belamente atrasada.
Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor. www.perisse.com.br/