[pra onde se vai]

Lá estava. No galho mais alto da árvore em que costumava passar as tardes lendo, quando recebeu a notícia. A figueira era plantada num canteiro da calçada, do lado de fora da grade que cercava o prédio. A síndica não gostava dela porque as raízes cresceram e quebraram tudo. Mas para Luíza, mais valia respirar lá de cima do que trancafiar-se onde pessoas falavam alto e o telefone tocava o dia inteiro. Ela odiava o telefone. Para não descer, quando sentia a garganta seca, respirava fundo e então a sede virava a própria água. Só se distraía com pessoas que passavam na rua falando e rindo de coisas tão sem graça.

Pensara em dar nome à fiel companheira, já havia escolhido; mas o que costumava chamar de imundice urbana arrancou sem dó aquelas velhas raízes de mais de 14 anos. Levou pra longe, machucou, jogou fora. Foi assim que tudo virou não. Quando Luíza quis sentir a dor da perda, erro atrás de erro, foi tida como imprópria para o mundo. Procurava e não via. Ela não via que eles não viram ela que, estava ali, no entanto, sentindo a dor que se sente quando um bom amigo se vai.

Tudo errou, a grande poeira das ruas agora a sufocava. Mais lhe cobravam e humilhavam, com mais aspereza a queriam sem um sorriso. Tudo porque uma vez haviam prestado atenção; tudo porque dessa vez não estavam distraídos o bastante para pisar nas raízes e não perceber que elas estavam apenas se revoltando contra o concreto que lhes puseram em cima. Só porque, de súbito exigentes e insensíveis, os homens que constroem, não querem ter o que já tiveram. Não querem lembranças, preferem o futuro incerto.

Luíza foi levada sem saber para onde. Branco e luz era o que via. Longe como uma mentira eterna. Lobotomizada. Não por metros, quilômetros ou cortes de ligação no cérebro. Travou uma batalha contra o mundo destruidor. As palavras lhe enlouqueceram. Sem qualquer cicatriz visível, a distância a deixou inconsciente. Os médicos prometeram aos pais que não usariam o picador de gelo, só precisariam de tempo e remédios fortes para que Luíza amasse pessoas e não outras árvores. Tinha agora os cabelos brancos. As marcas do rosto e todas as outras tinham semelhança com as velhas raízes da árvore que foi arrancada de seu lugar e morreu de sede.

Aos 52 anos, no mesmo quarto branco e iluminado, sonhava todas as noites com o dia em que o avô morreu. Ele a levava pela mão para, como dizia: “garantir-lhe uma verdadeira amizade, livre de ganâncias e trapaças”. Com mãos aparentes de quem trabalhou com a terra uma vida inteira, cavava o buraco e dizia num tom de voz grosso e sereno: “– Aqui. Bem aqui nós vamos plantar a árvore que vai te ver crescer e ser tua melhor amiga depois que eu for. Quero que cuide dela como cuida de mim, minha pequena”. No mesmo cenário, Luíza ajudou a enterrar a plantinha de poucos centímetros e prometeu ao avô que não deixaria que fizessem mal à nova companheira; tinha consciência de que o coração de seu maior tesouro não agüentaria muito tempo.

Não demorou muito ele se foi. Telefonaram para avisar. Ela recebeu a notícia ali mesmo, no galho mais alto da árvore que seu avô plantou porque não quis descer. A dor foi menor porque tinha um abrigo. Perder o avô havia sido a maior dor até então. Com o tempo, notou o quanto tinha em comum com aquela bela árvore que agora era grande e forte. Uma vez uns meninos que brincavam na rua atiraram pedras, de seu tronco e folhas saíram lágrimas idênticas as de Luíza no dia em que o avô partiu. Agora eram cúmplices, fiéis companheiras. E enquanto ela estivesse ali, não havia o que temer.  Mas houve.

O sonho que misturava as duas perdas mais significativas de sua vida rodava sem parar naquele drama, que de acordo com os médicos era inventado. O coração do seu avô parou de bater naquele dia, e o de Luíza no dia em que não pôde fazer nada para salvar a maior lembrança que tinha dele. Ela não pôde cumprir a promessa que fez ao avô. Ela não pôde ser livre porque sabia demais sobre a liberdade. Ela não pôde andar pelos ares sem ser considerada louca. Foi então, naquele quarto branco e imenso do hospício; aprender que não estando distraído, o homem quer exterminar tudo que lhe possa parecer ameaçador. Foi então, desejar que não estivesse distraída naquele dia em que o telefone tocou, talvez se tivesse esperando ele não tocasse. Foi então, lamentar que o deserto da espera não tenha cortado o fio. Foi aprender que é preciso estar longe para que o pior aconteça. E tudo porque quis dar nome; porque quis ser e sentir pelo que amava. Em meio aos piores devaneios, desejava ter sido como os estóicos. Os estudou num livro uma vez, lá mesmo, na árvore. Queria ter revelado uma fortaleza de ânimo e austeridade. Ter sido impassível; imperturbável; insensível.

nanda.

” Engana-te; eu não me queixo. Nem me poderia queixar: tu deixaste-me uma liberdade igual à desses fios que o vento arranca às teias de aranha e que flutuam a dez pés do solo; ando pelos ares e não peso mais que um fio.” [Sartre - As Moscas]

~ por nandadreier em Agosto 7, 2008.

4 Respostas to “[pra onde se vai]”

  1. não passei uma grande perda ainda e já sou bem grandinho. talvez seja mais difícil agora do que se tivesse vivido uma quando mais novo.
    mesmo assim, coisas pequenas tem derrubado meu estoicismo adolescente – quando parecemos indestrutíveis. Não me acho mais impassível, imperturbável, muito menos insensível.

  2. gostei do blog.
    :^)

  3. Oi. Passei por aqui, e li o seu texto.
    Nossa! Que texto maravilhoso..
    Passei por um grande perda ha “mto pouco” tempo.. infelizmente não foi a perda de uma arvore, mas consigo imaginar a dor que tu quis transmitir atravez da menina. Eu sinto essa dor, e a sinto mto forte. Perdi minha mãe, e senti no seu texto a dor expressa.

    Parabens garota! Vc escreve mto bem..
    Adorei conhecer o seu blog, e passarei mais vezes por aqui.

    Abraços
    Vania Paula

  4. Nossa .. quee coisa mais perfeita!Bom, não que coisas perfeitas sejam as melhores, creio eu que não, mas como vc consegue de uma forma tãoo simples retratar algo tão verdadeiro! Aff .. vou fazer 20 anos em setembro, e já acho quee doi viver …

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