Depressão na adolescência

 Cada vez mais jovens tornam-se dependentes de medicamentos

Uma sensação de vazio ás vezes toma o meu corpo, falta esperança para seguir em frente. Me sinto culpada, desamparada e inútil. Fortes dores de cabeça me tornam incapaz de tomar decisões, de me concentrar e lembrar das coisas. Estou completamente desmotivada. Durmo pouco, e quando durmo, durmo mal. Tenho pesadelos. Meu apetite varia entre crises de muita fome e asco total aos alimentos, o que resulta na mudança constante de peso e em dores no estômago e nas costas. Me irrito com facilidade e por motivos bestas. Há quatro anos tenho crises temporárias de depressão.

Tudo começou nos meus 14 anos. Estava na oitava série, tinha muitos amigos, as melhores notas da turma e uma estrutura familiar invejável. Impossível para as pessoas que conviviam comigo, perceber a doença. Desde pequena fui muito mimada pelos meus avós, meus tios e meus pais. Tive uma infância normal e feliz. Minha avó conta que eu brincava muito e distribuía sorrisos. Nas fotografias da família, em todas apareço abraçando ou beijando alguém, sempre fui muito carinhosa, cresci assim. Como a maioria dos adolescentes, assistia TV, acessava a internet, e tinha paixão pelo esporte.

Comecei a praticar voleibol aos 8 anos de idade com o incentivo do meu pai, que foi atleta na sua juventude. Competi em ligas regionais, estaduais e nacionais, e cheguei a jogar em time profissional. Tinha gosto pelo esporte, minha paixão maior era o volêi, mas praticava também arremesso de disco, jogava basquete e handebol. Gostava do meu corpo e tinha vontade de me cuidar. Aos 13, comecei a sentir fortes dores no joelho, dificuldades para saltar e correr. Meu pai preocupado com o orgulho que a filha atleta lhe trazia, me levou ao médico imediatamente. Nos exames e o doutor constatou que eu não poderia mais jogar, pelo menos por enquanto. Um cisto poplíteo no joelho direito, foi esse o problema que acabou com a minha carreira de atleta.

No início tinha muita vontade de voltar a jogar, mas depois fui me acomodando. Acomodação esta, que me deu 12 kg a mais. Dizem que o rosto das pessoas é o cartão de visitas. No meu caso agora, eram bochechas fofas e rosadas que realçavam os sorrisos até então sinceros, que dava para os meus amigos e minha família. Por me sentir gorda demais, eu tomava laxantes, fazia todos os tipos de dietas e chorava muito quando estava sozinha. Sentia uma dor enorme ao deitar na cama todos os dias e saber que era tudo culpa minha. Eu não podia mais praticar esportes e minha rotina mudou completamente. A menina que fazia academia de manhã cedinho antes de ir para a escola, e todos os dias depois de estudar ia para o ginásio treinar, agora ficava em casa, sozinha, estudando e por ansiedade comendo desesperadamente.

Minha mãe chamava a atenção quando via que eu me excedia na comida, e eu me sentia cada vez pior. Comecei a sentir nojo da comida, algumas vezes até o cheiro me deixava mal. Após as refeições ia escondida para o banheiro e forçava o vômito, pois tinha na cabeça que assim não engordaria mais e até mesmo perderia peso. Como passei a forçar freqüentemente, minhas irmãs desconfiaram. Quando minha mãe descobriu me senti pior ainda, pensava que todos fossem sentir nojo de mim. Ela me levou ao médico imediatamente constatou que eu estava com transtornos alimentares. O primeiro medicamento receitado por ele foi a fluoxetina. Um antidepressivo para inibir a recaptação da serotonina no meu cérebro.

A serotonina é um neurotransmissor que desempenha papel importante no funcionamento do sistema nervoso, controla os hormônios, o sono e o apetite. Nos primeiros dias eu sentia muito sono e vontade nenhuma de fazer qualquer coisa, mas me sentia mais tranquila. As piores crises passaram e eu estava agora com 16 anos. Me tornei dependente da fluoxetina, e quando tentava reduzir as doses do remédio, perdia o controle. Meu humor começou a alternar-se entre momentos de sensações péssimas e de euforia, outra vez fui ao médico. Transtorno bipolar do humor, esse foi o novo diagnóstico do meu médico. Desde então os sinais e sintomas se agravaram. Ás vezes sobra energia, vezes falta. Meu pensamento acelera, falo muito e falo rápido. Pulo de uma idéia para outra sem notar, fico quase o tempo todo distraída. O médico já receitou Lítio, Cymbalta e vários outros antidepressivos, mas todos fazem efeito por um certo tempo e depois as coisas voltam ao normal.

Apesar de tudo sou uma pessoa feliz, e consigo ás vezes separar as coisas. Minha família sabe da situação e por isso tenho todo o apoio de que preciso. Mas àqueles que estão começando com os remédios, peço por favor se livrem deles, são de efeito imediato porém quase todos de efeito temporário. E ser dependente de remédio para não perder o controle, para dormir, para sorrir, não é nada agradável.

Então, eis a minha primeira reportagem narrativa.

Sim, estou narrando em primeira pessoa.

Grande coisa.

Texto desenvolvido para a aula de Técnica de Reportagem e Entrevista II.

~ por nandadreier em Junho 4, 2007.

8 Respostas to “Depressão na adolescência”

  1. [...] – Depressão na Adolescência; [...]

  2. Oi Fernanda.
    Se quiser participar da discussão mesmo, temos aula todas as terças-feiras a partir das 16h. Vamos discutir este eixo de textos nos dias 27 de novembro e 4 de dezembro.
    Sobre o porquê de eu ter escolhido: entendeu a relação dele com os outros?

  3. Estou a passar o mesmo com o meu filho de 17 anos.
    Já tentou o suicidio por 3 vezes.
    Nestas alturas descobrimos forças que não sabiamos as ter.
    Muda-mos a nossa forma de enfrentar a vida e seus problemas.
    tenho passado essa força a ele. Pais e filhos, nunca desistam.

  4. Olá! Sou estudante de jornalismo da UFV e estou fazendo uma matéria sobre depressão na adolesc~encia pro jornal do curso. Gostaria de saber se eu posso usar seu depoimento pra ilustrar minha matéria!
    Me responda por favor!!

  5. Meu filho tbém está com depressão, anorexia. Tenho levado a médicos e tenho tentado ser mas presente apesar de trabalhar fora.
    Eu creio em meu filho recuperado e feliz.

  6. Tenho um filho de 17 anos. De uns meses para cá vem demonstrando abatimento, mudança de humor e pior: queria muito entrar de férias escolares, porque estava estudando muito. Agora, como não podemos sair todos os dias e nem sempre há algo para fazer, demonstra ansiedade e insatisfação. Ou seja, já está desejando o retorno das aulas com ansiedade.

  7. Tenho um filho de 14 anos, que desde os 13 vem sofrendo de medo de contaminação,principalmente dos pais(não abraça, não beija,não chega perto)…Começou lavando as mãos demoradamente e aos poucos
    com o banho longo (não todos os dias),separando tudo que é dele, tipo: toalha de rosto, pasta de dente, sabonete, shampoo,copo,etc…
    Já o levei ao psiquiatra, que recomendou terapia com psicólogo, mas ele não concorda em ir…O que devo fazer?
    Estou muito preocupada, mas não posso levá-lo a força…
    Quando falo no assunto, ele fica muito agressivo…

  8. ola eu estou fazendo um trabalho e irei apresentar dia 22/09/09 sobre depressão na adolescência e escolhi esse texto para o meu trabalho pois eu achei ele bem realista

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